Visão Estratégica e Influência das Leis


Publicado em 06/03/2013 05:57
Por Dr. Wéliton Roger Altoé
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Eu e minha equipe fazemos debates rotineiros sobre o futuro do nosso negócio, e sobre o futuro do negócio dos nossos clientes. Consideramos aspectos macro e microeconômicos, forças e fraquezas de cada segmento. Tentando enxergar pelos olhos dos nossos clientes, e nos antecipar às suas necessidades, concluímos ser importante abrir mais uma filial, desta vez no Norte do Estado do Espírito Santo. Atenderíamos, em grande parte, às empresas do segmento de Mármore e Granito que estão abrindo filiais ou se mudando para aquela região.
 
Estrategicamente, a expansão dos nossos negócios para o Norte é fundamental. Nossos clientes estão migrando, e o crescimento econômico daquela região é visível. Se ainda não fomos para lá, é por carência tecnológica, que será sanada com a reforma da nossa Matriz.
 
Por muitos anos as empresas se instalaram em Cachoeiro de Itapemirim, transformando-a na Capital Mundial do Mármore e Granito. Em face da predominância do setor marmorista nesta Região, surgiram sindicatos, feiras, centros, etc... Com o crescimento da demanda e a necessidade de oferecer novos materiais ao mercado, as principais empresas do segmento do Granito de Cachoeiro de Itapemirim começaram a expandir suas bases para o Norte do Estado, através da abertura de pedreiras e empresas de Mineração. Junto com essas empresas, houve o maciço investimento publico em estradas e infraestrutura, fazendo surgir cidades e instalação de empresas de outros segmentos.
 
Há mais de 20 anos, o principal motivo de se ir para o Norte era de origem natural, em buscas das enormes jazidas. Hoje, o norte do nosso estado concentra grandiosas reservas de riquezas minerais, grandiosas empresas, numerosa população e os mais modernos empreendimentos em extração e beneficiamento de rochas ornamentais. Ao contrário da região Sul, onde as lavras de rochas ornamentais escasseiam, o Norte, e região circunvizinha, possuí veios de minérios que sequer foram explorados, com materiais de qualidade "tipo exportação". Por terem raízes no sul do Estado, mais especificamente na Cidade de Cachoeiro de Itapemirim, os empresários têm extraído a pedra na Região norte, trazido para Cachoeiro, beneficiado e, após, encaminhado para exportação ou para o mercado interno. Ou seja, são praticamente 500 quilômetros a serem vencidos sobre as péssimas condições da BR 101, para o transporte do material bruto extraído das pedreiras no Norte. No Sul, onde sempre ocorreu o beneficiamento, o produto retorna até o porto de Vitória, por onde toma rumo internacional.
 
Enquanto ausentes produtos similares e a atividade não atraía os atrozes olhos do fisco, o alto indicie de lucratividade do ramo admitia uma estranha conta na cadeia produtiva, que leva o produto a percorrer 750 km entre Norte x Cachoeiro x Vitória, ao invés dos 250 km entre o norte até a capital. A alta lucratividade do setor absorveu o contrassenso e o disparate logístico (aquisição, movimentação, armazenagem e entrega) por um bom tempo. No entanto, os tempos mudaram! Com o passar dos anos, o governo do estado percebeu o grande potencial econômico do norte e reverteu inúmeros investimentos para a região. Infraestrutura, transporte, e incentivos fiscais impulsionaram o crescimento econômico do Norte para níveis acima da média estadual. O entusiasmo político dos representantes da região ampliaram ainda mais os investimentos do governo. Em resumo, o Norte se tornou a “galinha dos ovos de ouro” para os empresários do mármore e granito.
 
Além de todo esse cenário, as Leis e regras jurídicas favorecem a região. Entraram em vigor a nova "Lei do Motorista", que elevará o tempo de transporte do bloco, e consequentemente o preço do frete; além da "pauta de preços mínimos" para o mármore e granito, que aumentará o valor pago de tributos, reduzindo ainda mais a margem de lucro das empresas. Sem maiores discussões, o percurso entre sair com o caminhão vazio do Sul do estado, carregar o bloco no Norte e retornar a região sul, passou de mínimas dezesseis horas para dois dias e meio. Referidas Leis obrigam os empresários a repassarem o aumento do custo ao consumidor ou reduzir drasticamente sua margem de lucro.
 
Os empreendedores que já vinham enfrentando significativas perdas em decorrência da concorrência desleal de produtos importados, principalmente da China; uso das cerâmicas e porcelanatos para revestimentos, etc., serão obrigados a reduzir ainda mais seus custos de produção. E o caminho mais simples para a redução de custos, é a abertura de filiais e transferências de empresas para um local intermediário entre as pedreiras e o ponto de entrega do material, ou seja, ceder às necessidades logísticas passa a ser fundamental para a manutenção e sobrevivência das empresas.  A matemática é precisa, sem uma completa reestruturação no atual modelo, inexiste compensação financeira para que a maioria das empresas mantenham a sede e toda sua estrutura no Sul do Estado.
 
Alguns empreendedores já se anteciparam, e estão construindo empresas independentes no norte do estado ou estão fechando suas portas no sul, e se mudando para aquela região. A legislação que em sua finalidade maior deveria trazer avanços políticos, econômicos e sociais irá retroceder a economia de nosso micropolo, e em efeito dominó prejudicará toda a população do Sul do Espírito Santo.
 
Cachoeiro de Itapemirim, especialmente, sempre teve a economia, e seu avanço, diretamente ligados ao ramo de rochas ornamentais, maiores empregadores e detentores de receita da região. Com o deslocamento das empresas, ou de parte das empresas, para o norte do estado, em sequência lógica, o potencial econômico será levado junto com elas, e restará uma economia frágil e ainda dependente, que sofrerá possível recessão.
 
Nossos futuros candidatos deveriam dar maior ênfase a planejamentos e programas estratégicos, a fim de combater a iminente evasão de receitas. Ainda que sempre se denote como maior preocupação de campanha, políticas populistas, e por vezes demagógicas, a economia sempre será força motriz do Estado. Nossos atuais e futuros gestores não podem esquecer que os mesmos eleitores que irão escolhê-los como representantes, necessitam de empregos, economia segura, forte e em crescimento. Todavia, o que pensam nossos gestores públicos? Será que já possuem um planejamento estratégico para combater essa ameaça real? Espero que sim. Minha empresa não pode fechar os olhos para essa realidade, e, em muito pouco tempo, estará oferecendo nossos serviços na próspera Região Norte do Estado do Espírito Santo. Sua Matriz, entretanto, jamais sairá desta Cidade.
 
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Artigo publicado na revista lugar de notícias - Julho/2012

http://www.altoeadvocare.adv.br/site/conteudo.asp?codigo=732

 


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